Tuesday, June 06, 2006

A esquerda ressuscitada por Léo Lince

A esquerda ressuscitada

Léo Lince


Em sua primeira Conferência Nacional, neste fim de semana em Brasília, o Partido Socialismo e Liberdade lançou chapa e programa para a disputa presidencial que se avizinha. Vale a pena conferir. O mais antigo (e quase abandonado) teatro da capital federal foi palco de um acontecimento cuja importância pode crescer muito nos próximos meses.

O ponto de partida do programa é a constatação de que o governo Lula foi um portentoso desastre para o projeto de mudança que o levou à vitória. O que prometia ser uma alvorada de sonhos foi, na realidade, a continuidade do ocaso, mais do mesmo, um pesadelo. Aderiu ao modelo neoliberal, desmobilizou movimentos, desencantou a militância cidadã e, com intensidade e rapidez espantosas, mergulhou de corpo e alma em métodos que “retirou das mãos do PT também a bandeira da ética”.

O programa dos socialistas libertários aponta como objetivo, de novo, “consolidar uma alternativa de esquerda na sociedade brasileira”. Querem acertar o passo com a dinâmica que, na América Latina, tem feito avançar a mobilização popular na busca de saídas para a crise estrutural de nossas sociedades. Falam em “retomar o processo de organização autônoma dos trabalhadores e dos setores populares e democráticos”, bem como da “reanimação dos setores militantes, neste momento dispersos ou restritos às intervenções pontuais”.

Apostam, para tanto, na reconstrução de uma esquerda ampla, capaz de dialogar com os trabalhadores da cidade e do campo, com a intelectualidade, a comunidade universitária, a juventude, pequenos produtores e com todos os setores que resistem ao modelo econômico posto em prática pelo governo. A agenda proposta é a do contraponto radical ao modelo dominante. Fala em reforma política e em “novas instituições realmente democráticas”, em “eliminação da tirania financeira”, “taxação das grandes fortunas” e combate sistemático às desigualdades.

Ao demarcar com nitidez, nas lutas sociais e no embate institucional, um efetivo divisor de águas com o continuísmo representado pela recondução de Lula ou pelo retorno tucano, o programa adota um tipo particular de radicalidade. A agenda do contraponto não emana da doutrina nem precisa ser inventada. Ela brota dos conflitos que estão em curso e, portanto, tem a força potencial da realidade em movimento. Pode adquirir a configuração de uma agenda da sociedade, do mundo do trabalho, das amplas maiorias sociais, uma agenda capaz de retirar a disputa presidencial da bitola estreita da manipulação das elites.

Para travar a disputa na sociedade, traduzir em presença viva uma proposta ao mesmo tempo radical e generosa, o PSOL não poderia escolher nomes melhores. Heloísa Helena é um fenômeno político espantoso. Com a mesma desenvoltura com que sempre interpelou os conservadores, ela lança seu repto contra os seqüestradores da esperança. César Benjamim é um intelectual sério e de rara densidade. Transita no território pedregoso da teoria, mas valoriza a prática do Brasil profundo, onde o povo moureja e renova a sua força.

Se houver debate de projetos na disputa presidencial, se houver um mínimo de participação cidadã, a grande novidade da eleição, contra o desalento e as polarizações desalentadoras, já está delineada: é o Partido Socialismo e Liberdade, a esquerda ressuscitada.

Léo Lince é sociólogo.